O Hezbollah fazendo a Folha rebolar
Alterar o conteúdo do jornal sem alertar aos leitores não é errata, é falta de ética.
Quem me acompanha por aqui sabe que sou um crítico costumaz da Folha de S.Paulo. Como um ex-colaborador do jornal e leitor de décadas, me sinto impelido a expor o que penso e entendo sobre este jornal que, de uns tempos para cá, vem deixando a ética e o jornalismo cada vez mais de lado em troca de mais alguns Reais na conta.
O texto hoje é sobre um erro que encontrei no jornal impresso, na edição da última terça-feira, 3 de março de 2026, onde a Folha lidou com a situação da forma menos ética e correta possível.
Estava lá eu fazendo o que faço todos os dias na hora do café da manhã: lendo os jornais impressos (nas versões para iPad). É um ritual que me habituei há décadas e que não consigo iniciar o dia sem fazê-lo. Começo sempre pela Folha, em seguida leio o Estadão e termino com O Globo (esse último só leio alguns cadernos, pois não me interesso pelo cotidiano do Rio de Janeiro).
Ler a versão impressa do jornal diário é um costume que até enxergo, em parte, como ultrapassado. Afinal, boa parte das notícias que você irá ler ali, logo ao amanhecer, já estarão ultrapassadas por outras que estão nos portais online dos mesmos jornais. O impresso noticia um início de bombardeio em Teerã? No UOL já estão noticiando os contra-ataques e por ai vai.
Quem nunca correu no caderno de Esportes do impresso do seu jornal preferido para ver o resultado daquele jogo da Libertadores que começou tarde da noite e, ao invés do resultado, lê a seguinte nota: o jogo não foi encerrado até o fechamento deste caderno.
Pois é, são essas coisas que me dão prazer em ler o jornal impresso. A sensação de “offline” mesmo que eu “folheie” pelo iPad. Chega a ser nostálgico, ao mesmo tempo que informa.
Mas a edição impressa da Folha tinha um erro curioso que jamais teria acontecido se ainda ocorresse algo básico na redação: a REVISÃO.
A manchete colocou em destaque algo que sabemos ser impossível, o Hezbollah (misto de grupo político e terrorista libanês) como aliado de seu maior inimigo: Israel.
Sim, eu sei que Diogo Bercito jamais teria escrito isso. Acompanho o que ele escreve e sei de sua competência e talento. Foi um erro de digitação, uma traição do raciocínio na hora de escrever o título. Afinal, bastava ler o lide na sequência para ver que o pensamento do jornalista estava correto.
Mas por que esse erro tolo é antiético? Pela forma como o jornal, e não o jornalista, lidou com erro. Acompanhem.
Assim que percebi o erro parei a leitura para tirar um print (que é esse que postei logo acima). Em seguida fui até o portal da Folha para ver se o mesmo erro estava por lá, antes de eu fazer um alerta ao jornal, para que saísse no dia seguinte o famoso “erramos”. No portal (clique aqui) a notícia estava correta.
Adoro “pintar” erros que encontro em jornais e revistas. Faço isso desde os tempos do bom e velho jornal de papel, que guardo numa caixa. Tem cada pérola que vou te contar… e, mais recentemente, tenho o hábito de tirar uma onda publicando no meu Instagram.
E foi o que eu fiz, mais uma vez. Mas qual foi a minha surpresa, horas mais tarde, ao receber uma DM de uma colega minha, jornalista? Ela estava lendo o mesmo impresso que eu, via tablet, e na versão dela não existia o erro, dando a impressão de que eu inventei a tal falha da Folha.
Corri no iPad e abri a edição “impressa” da Folha, a mesma que li 7-8 horas antes e o que eu encontrei? Haviam realmente alterado a manchete no impresso, sem qualquer aviso ou nota:
O jornal simplesmente alterou deliberadamente a versão online do impresso para apagar o erro que, repito, foi de revisão. E entendo isso como grave.
É como se o jornal enviasse um funcionário dentro da minha (ou da sua) casa para arrancar das nossas mãos o jornal com o erro e entregar outro, corrigido. Uma forma pouco ética de apagar um erro que deve ser corrigido de outra forma, ou seja, com a costumeira errata.
É a mesma prática odiosa que é adotada pela Amazon, que tem o costume de alterar sem consentimento ou aviso prévio as capas de livros que compramos e armazenamos no Kindle.
E a errata até saiu no impresso do dia seguinte, como mostra meu print abaixo. Mas se eles iriam publicar a errata para que mudaram o online? Ao meu entendimento para esconder o erro e a ausência de revisão nos conteúdos do jornal.
E apenas essa simples errata como foi publicada no dia seguinte teria resolvido o problema da forma mais correta, elegante e ética possível. Afinal acredito que a maioria dos que leem o caderno Mundo sabem que o Hezbollah é inimigo de Israel, não um aliado.
Ao alterar a versão final do impresso, horas depois de a grande maioria das pessoas provavelmente terem lido o jornal a Folha mandou um recado muito perigoso aos leitores, em especial aos assinantes: o jornal não respeita quem o lê. Como confiar que notícias e reportagens já publicadas nessa versão digital não poderá (ou já foi) alterada sem conhecimento prévio do leitor? Fica difícil.
E é bem provável que você não lerá nada sobre esse ocorrido na coluna dominical de Ombdusman da Folha. A atual ocupante do cargo é uma mera sombra de seus antecessores, aparentemente mais preocupada em manter seu emprego do que apontar o visível declínio daquele que já foi o mais importante do Brasil.
O grave não foi o erro da manchete mas como a Folha lidou com o caso, com pouca ética. E a falta de ética implica na quebra de confiança entre o leitor e o jornal.






Pergunta sem maldade: como tu consegue fazer isso consigo mesmo!?! Ler jornal diário todo dia!?? ;-)
Eu lia todo dia o NYT e desde Trump ficou impossível ler esse jornal, pq o sangue sobe e o fígado começa a adoecer. Mas Folha (eu tinha assinatura do impresso) tirando as tirinhas e os cadernos de Artes e Cultura era assustador Rsrsrs...
Um abraço e parabéns pelo post.
PS: interessante esse "link mágico para comentar". Nunca tinha visto nada parecido