Como a Inteligência Artificial está destruindo o meu trabalho
E talvez esteja prestes a destruir o seu também...
Quem me conhece há mais tempo sabe do meu trabalho junto ao São Paulo Antiga, hoje um instituto cultural, que fundei lá atrás, em 2009. O que hoje é algo sólido, com sede física própria, acervo (hemeroteca, biblioteca e amplo acervo fotográfico físico), começou há 17 anos como um blog pequeno e sem muitas pretensões, mas que ao longo dos anos transformou-se em grande referência, sendo utilizado desde curiosos até a estudantes e pesquisadores.

Ao longo dessas quase duas décadas esse trabalho permeou minha vida e nunca parou de crescer. No entanto nunca foi um trabalho que se pagou totalmente, me deixando em dificuldades em parte de sua existência. Por duas oportunidades o São Paulo Antiga quase deixou de existir, ou seja, quase fechou às portas por absoluta impossibilidade de pagar as despesas: em 2012 e 2019.
Na primeira vez fui salvo, com muita gratidão, por uma simpática matéria feita no Estadão pelo jornalista Edison Veiga, cuja reportagem me levou a conhecer na época a Marie France Henry, proprietária do renomado restaurante francês La Casserole, no Largo do Arouche. Fã do meu trabalho ela fez a ponte entre eu e a Porto Seguro, que decidiu patrocinar o São Paulo Antiga, entre 2012 e 2017. O patrocínio não foi gigante, mas manteve as contas bons anos, me permitindo continuar à frente desse projeto que tanto amo.
Com o fim do apoio financeiro iniciei uma campanha de crowdfunding que segue até hoje (quer apoiar, clique aqui). No entanto ela nunca foi vultosa o suficiente para manter o São Paulo Antiga. Outras rendas que complementam são trabalhos esporádicos de direito à cidade encomendado por vereadores, deputados, venda de fotos da cidade para livros e trabalhos de colaboração com veículos como Veja SP, MTV e Folha de S.Paulo.
Além desses todos mencionados acima, um deles transformou-se na minha principal remuneração e é justamente ela que a inteligência artificial agora caminha para destruir: o AdSense.
O Adsense é a ferramenta de remuneração do Google, onde vem dinheiro oriundo tanto da publicidade veiculada no site, quanto à publicidade veiculada no canal do São Paulo Antiga do YouTube (ainda não está inscrito lá? então clica aqui).
A ferramenta da remuneração do Google nunca foi a minha total salvação financeira, no entanto sempre permitiu que eu contribuir de maneira fundamental pagar minhas contas pessoais e também do São Paulo Antiga, desde abril elevado à categoria de instituto cultura, ou seja, uma Oscip.
Tudo foi muito bem, meados de 2025.
A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NOS RESULTADOS DE BUSCAS
Foi em setembro do ano passado que começou a funcionar uma mudança no serviço de buscas do Google que alterou completamente a minha vida e, principalmente, a segurança da existência do meu trabalho: o modo IA no resultado das buscas.
De um dia para o outro os acessos ao site caíram cerca de 15% e foram caindo dia a dia cada vez mais até chegar a um patamar que, mesmo produzindo conteúdo quase que diariamente, os acessos são 50% menores do que eram até setembro de 2025. O motivo é simples, a IA do Google busca o resultado dentro do site, resume e joga para quem está pesquisando, fazendo com o que a pessoa não entre mais no site.
Com isso a renda de AdSense que eu acumulava em 1 mês, agora leva até 3 meses para acumular um valor similar. Tem dias que não arrecado nem mesmo 1 dólar cheio vindo da remuneração do Google. Completamente desanimador ou melhor, devastador.

Trabalhar com conteúdo histórico, como é o meu caso, não é rápido e muito menos barato. São muitos e muitos reais investidos em compra de acervos, restaurações de fotos e documentos, atualização de equipamentos (câmeras, microfones, scanners etc), além dos gastos mensais com softwares diversos (Suítes Adobe, Microsoft, nuvem), gastos com hospedagens e recapes e as despesas fixas do espaço (IPTU, gás, eletricidade, água, alarme, seguro telefonia e internet). Tudo isso agora está comprometido de vez, em virtude de uma única mudança do gigante de buscas.
Você poderia dizer “Ah, mas é só você ir atrás de apoiadores e anunciantes e pronto.” Contudo não é bem assim. Meu tipo de conteúdo, focado em história, não atrai anunciantes. Apoiadores? Sem chance, o brasileiro enfia um adblock e não se preocupa se irá me prejudicar ou não. Restam duas coisas: vender meu corpinho pelo OnlyFans (o que sei que vai falhar miseravelmente rsrs) ou busca apoio de político (o que eu não aprecio e resisto firmemente).
Abaixo uma galeria com uma série de quatro resultados de pesquisas e artigos que só existem no São Paulo Antiga, mas que o Google surrupiou com sua IA, levando aos leitores a não mais acessar o meu site e derrubar a minha remuneração.




E OS RATOS IA DE IA TAMBÉM ATRAPALHAM
E não é só a IA do Google que causa a ruína do pesquisador independente. Há também agora pessoas desonestas que criam sites fantasmas e usam robôs para surrupiar por completo o conteúdo que jornalistas como eu fazem. E isso acontece minutos após minha publicação original, publicando o material em um site desconhecido e obscuro.
Esse site publicou meu texto duas horas depois da minha publicação original, na cara dura, sem qualquer autorização. Só fiquei sabendo porque pago uma ferramenta de rastreio de conteúdo dentro do Wordpress.
O FUTURO? TALVEZ EU NÃO TENHA UM FUTURO!
Essa situação toda é muito difícil de reverter. Poderia contratar um advogado e ir à justiça como fizeram grandes portais de notícia no Brasil e no exterior? Poderia, mas ai gastaria um dinheiro que não tenho e que faltaria em outras coisas, ainda correndo um sério risco de correr (quem sou eu se comparado à gigante Alphabet dona do Google?). Na Austrália o governo se mexeu, e nos Estados Unidos a CNN mandou recado via justiça. Já aqui ninguém se importa com nada.
Nestes 17 anos de trabalho à frente do São Paulo Antiga já enfrentei de tudo: plágio, cópia de conteúdo em jornais de circulação e até em livros, fotos republicadas sem licenciamento prévio e ausência de patrocínio e de crowdfunders. Todas elas tirei de letra, mas infelizmente o inimigo agora é poderoso demais e estou prestes a jogar a toalha.
Minhas noites de sono estão mal dormidas demais ultimamente, sempre pensando como será o mês seguinte. E a cada noite dessa que passa sinto que não terá mês seguinte por muito tempo.
É absolutamente impossível para mim competir com essa concorrência desleal do Google que praticamente arrasou os meus ganhos. Me sinto derrotado, perdido.
Se o cenário não mudar nos próximos 3 meses será o fim do São Paulo Antiga, tanto como site quanto instituto. Vou encerrar as atividades e, claro, tirar tudo do ar, afinal não vou deixar online para que continuem treinando IA ou copiando.
Se você leu esse texto até o fim você pode contribuir para que esse meu trabalho não vire pó. Você pode fazer uma doação, indicar um patrocinador, entrar no nosso crowdfunding ou assinar essa newsletter que mantenho aberta a todos.
Espero não ter que fechar as cortinas dessa peça de teatro que o é cotidiano contra as big techs.
Abaixo deixo alguns textos publicados na Folha e Estadão sobre o tema que acreditou que será de grande interesse para ler, especialmente se você for jornalista e/ou escritor.
Artigos:
:: Pesquisador diz que inteligência artificial usa cultura brasileira em processo colonial. (Folha de S.Paulo)
:: Quanto devo ganhar quando a IA consome meus livros? (O Estado de S.Paulo)
:: Riqueza cultural do Brasil é pote de ouro para treinamento de inteligência artificial (Folha de S.Paulo)
:: Inteligência artificial deve pagar por conteúdo jornalístico? (Folha de S.Paulo)







Meu Deus, nunca havia pensado nisso. 😮
Que tristeza... vou entrar no crowdfunding.